Novos estudos sobre neurogênese podem indicar caminhos para tratamento da depressão

Pessoas que passam pela perda do emprego, divórcio ou outras situações desafiadoras na vida adotam diversos mecanismos para tornar a situação menos traumática. A maioria dessas estratégias aparece na forma de mudanças comportamentais: viagens, ajustes no orçamento simplesmente a vontade de conhecer pessoas novas.

O que um estudo publicado no Journal of Neuroscience descobriu, no entanto, é que o cérebro se adapta também – e de uma maneira curiosa: ele deixa de produzir mais neurônios, um mecanismo conhecido como neurogênese.

O estudo foi realizado em ratos adultos. Para chegar aos resultados, os pesquisadores tentaram reproduzir o estresse vivenciado pelos humanos nas cobaias mudando a forma como se organizam socialmente. Com esse recurso, puderam notar que menos neurônios foram produzidos no hipocampo, a parte do cérebro responsável por certos tipos de memória e pela regulação do estresse. Ainda, do ponto de vista comportamental, os ratos que apresentaram menor neurogênese favoreceram a convivência com ratos conhecidos e se afastaram dos desconhecidos.

A pesquisa é uma das primeiras a mostrar que a neurogênese adulta – ou a falta dela – tem um papel ativo na formação do comportamento social e de adaptação, segundo Maya Opendak, primeira autora do estudo e pesquisadora da New York University, nos Estados Unidos. “A preferência em conviver com ratos familiares pode ser um comportamento adaptativo desencadeado pela redução da produção de neurônios”, diz. “Neurônios nascidos na fase adulta são uma resposta à novidade social.”

Os resultados também mostram que as respostas comportamentais à instabilidade podem ser mais comedidas do que os cientistas esperam, explica Elizabeth Gould, coautora do estudo. Ela observa que a pesquisa surpreendeu ao mostrar que as cobaias não mostraram sinais de sofrimentos mentais estereotipados, como ansiedade ou a perda de memória.

“Mesmo em face do que parece ser uma situação muito perturbadora, não houve uma resposta patológica negativa, mas uma mudança que poderia ser vista como adaptativa e benéfica”, disse Gould, que também é professora de neurociência no Instituto de Neurociência de Princeton (PNI).

“Pensamos que os animais seriam mais ansiosos, mas nós estávamos fazendo a nossa previsão com base em achados que atestam ser a desorganização social sempre negativa”, disse ela. “Esta pesquisa destaca o fato de que os seres, incluindo os humanos, são tipicamente resistentes às perturbações e à instabilidade social.”

O estudo é incomum porque interferiu na estrutura social de ratos. Eles vivem em sociedades estruturadas que contêm um único macho dominante. O que os investigadores fizeram foi colocar ratos em vários grupos de modo a alterar sua configuração. Por exemplo, em vez de um macho dominante, foram formados grupos com quatro machos e duas fêmeas. Isso causou uma ruptura na organização social das cobaias.

Os ratos de hierarquias interrompidas exibiram a sua preferência por companheiros familiares seis semanas após esses tempos turbulentos, durante os quais a neurogênese diminui 50%, disse Opendak. Ainda, neurônios gerados durante o período de instabilidade levaram de quatro a seis semanas para serem incorporados ao hipocampo.

Quando os pesquisadores quimicamente restauraram a neurogênese adulta nesses ratos, no entanto, o interesse dos animais em ratos desconhecidos retornou aos níveis anteriores à interrupção social. Ao mesmo tempo, os cientistas inibiram o crescimento de neurônios em ratos que não haviam sofrido perturbação – e descobriram que os efeitos foram os mesmos naqueles que haviam passado pelo sofrimento.

“Esses resultados mostram que a redução na produção de novos neurônios é diretamente responsável pelo comportamento social, algo que não tinha sido demonstrado anteriormente,” disse Gould. O mecanismo exato por trás de como o menor crescimento das células levou à mudança de comportamento ainda não está claro, disse ela.

Bruce McEwen, professor de neuroendocrinologia da Universidade Rockefeller, disse que a pesquisa é um grande passo nos esforços para explorar o papel de uma parte do hipocampo no comportamento social e na eficácia de tratamentos que podem combater a depressão.

A conexão com o comportamento social mostrada aqui é importante, diz ele, porque o retraimento social é um aspecto fundamental da depressão em seres humanos. Essa relação é possível, segundo McEwen, porque a área estudada os roedores, o hipocampo ventral, é semelhante à região conhecida como hipocampo anterior em humanos.

“A maioria das pessoas experimenta alguma perturbação nas suas vidas e a resiliência é a resposta mais comum”, disse Gould. “Afinal de contas, se os organismos sempre respondessem ao estresse com depressão e ansiedade, é improvável que os primeiros seres humanos tivessem conseguido sobreviver, porque a vida na natureza é muito estressante.”

Os pesquisadores salientam, no entanto, que embora os achados possam orientar pesquisas em humanos, é importante sempre ter cautela ao extrapolar dados entre espécies.

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